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Sentada no chão da sala de TV. Esparramada na dor de sei lá o que. Acompanhada de um litro de Coca aberto e sem gás. Saco de bolacha vagabunda pra enfiar a dor. Foi assim que ela aprendeu a ser parceira de si mesma. Na alegria - quase nunca -, na tristeza -, um quase sempre injusto.
Era linda. Mas não foi sempre assim.
Nasceu feia. Olho esbugalhado. Cabeça grande. E vomitando. Sempre e muito.
Cresceu como a mais nova dos três filhos querida da mamãe. Mamãe que a carregava pra cima e pra baixo, orgulhosa da menina destemida, esperta, arisca. Um cisco. Cisco Kid.
Por isso não entendia porque na hora de jogar bola na rua, não podia. Implorava em fazê-lo na posição mais oposta a sua energia: o gol. Só no gol... Deixa, mãe! Por favor... A mãe às vezes deixava – por cansaço de resistir – às vezes negava – por intuição.
Por definição da mesma mãe, um dia acordou linda. Lindíssima.
Então, saiu do gol. Mudou de posição. Passou a jogar no ataque da beleza com direito a treinadora. A mãe.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Adolescente desejada. Amigas não tão lindas. A bem da verdade, não tão feias.
Sem graça, escondia das amigas o que a mãe escancarava para a família. A menina era modelo de roupas de gestante. Tão nova, mas tão linda que consegue vender até batas e batinhas. Nada que uma barriga de mentira não consiga resolver.
De mentira. Foi assim que começou a entender a mentira. Fingia que. Que era feliz assim. Que era natural assim. Que se sentia assim: modelo de feminilidade.
Foi o irmão do meio que avisou a irmã mais velha que na sala de TV, cada dia mais, se espalhava migalhas de bolachas e copos vazios com fundo negro melado de coca cola. Ficaram preocupados. E calados.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Um dia disse sim. A um rapaz.
Disse que se casaria com ele. Tão nova. Tão linda.
Acostumada a fingir que era o que não era não deu conta na hora H, do cabelo, da maquiagem e do vestido de noiva.
O cabelo desmanchou. A maquiagem lavou. Mas o vestido ficou. E ela se casou.
Um filho. Dois filhos. Três filhos. Era mãe de verdade.
Um ano. Dois Anos. Dez anos. Não era mulher de verdade.
Separou. A aparência da realidade. O suportar do viver. A verdade da mentira.
E foi viver.
Sem posição oficial no jogo que acreditava perdido. Dispensou a treinadora. Mas não o desejo de voltar a fazer parte daquele time primeiro, da infância, da rua. Nem que fosse pra começar na reserva pra depois chegar ao gol. Depois.
Encontrou uma antiga amiga. Que jogava bola. Que se lembrava dos sacos de bolacha e da coca cola e que achou graça em saber que as bolachas foram trocadas – influência dos filhos – por Doritos.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Acertou sua posição. Revezava com a amiga o meio de campo e o ataque. Na defesa, só se necessário.
Um ano. Dois anos. Nove anos.
Era uma mulher de verdade.
E então foi separada. Da alegria de conhecer. Do desejo de ter. Da vontade de ser. Ficou sem a amiga.
E foi viver. Tentar viver.
E enquanto não consegue, continua esparramando em qualquer sala de TV, copos de coca cola, sacos de Doritos e dor.

...E nesse seu aniversário quero dizer de meu amor por você. Luz de minha vida, razão de meu viver... Corta! Parou! Olha só: vocês precisam ficar sorrindo, boca arreganhada, de tanto em tanto dão uma viradinha e olham um pro outro. Sorrindo. Sempre sorrindo. Vamo lá? Valendo! Gravando!
...E por você, tesouro de meus dias, fazer hoje aniversário, ofereço-te essas palavras e acima de tudo meu coração... Corta, corta! Olha aí, to entendendo que vocês são amigos do casal aqui, vieram pra comemorar o aniversário da Deusinha, dá aquela força, mas é o seguinte: se continuarem nessa zona aí de fundo, o vídeo vai ficar uma bosta! Tem que fazer cara de quem tá achando linda a homenagem surpresa, a música do Wando de fundo, senão fode tudo e o amigo vai ter gastado dinheiro à toa. Então é o seguinte. Agora vem a parte que eles vão se beijar. Eu vou soltar três rojões, vocês tem que bater palma e não falar merda. Esse vídeo é coisa fina e ainda vai poder dá uma chance pro Everaldo mandar pra algum programa de televisão pra ganhar prêmio, bufunfa. Então, colaboration!
Gravando, pau na máquina!
...E espero que você aceite o meu beijo como prova de meu mais sincero amor e dedicação. Que nosso casamento continue por muitos e muitos anos para que juntos a gente possa comemorar todos seus aniversários. Minha linda te amo, te adoro e vou te beijar... Que porra é essa que tá acontecendo aqui? Meia noite, hora de silêncio e vocês com essa porra desse som nessa puta altura... Desliga essa merda agora!
Chefia dá só mais um tempinho, é a cena do beijo, só falta o beijo...
Que beijo que porra nenhuma. Quer fazer festinha vai pra motel, aqui é centro da cidade. Os caras que moram aqui tão putos, ligando direto pro 190. Circulando!
Mas chefia o Mané ali já pagou 150 reais pra esse show particular pra patroa. Deixa pelo menos gravar o beijo!
Já falei. Se beijou, beijou. Se não beijou, beija em casa!
Olha aí Everaldo: fica sussa. Eu vou fazer um desconto de 50 paus pra você por causa dessa treta com a autoridade. Mas fica sussa. Ficou da hora a gravação. Você leva jeito pra coisa. E você Dona Deusinha, tá de parabéns pelo marido, pela boa forma e sorriso bonito. A fita eu mando semana que vem e os balões que a gente ia soltar na hora do beijo tá no desconto que dei.
Vamo embora Cidoca, tem outra parada lá em Itaquera. Lá é beleza. Não tem nego invejoso pra mia a festa de Mané nenhum.

Já perdi a compostura. Choro onde tiver que chorar. Ainda não existe legislação restritiva ao ato anti-social de chorar. Então choro. E assim presto um serviço à sociedade. Não o óbvio de abrir as portas dos espaços públicos para o choro. Um mais nobre.
O de pensar, quando flagrar alguém chorando, a razão de tal desatino e depois, de tanto pensar, sem ao menos perceber, começar também a chorar. A perceber o quão miserável é a sua vida. O quanto o pote está até aqui de mágoa. E quando formos finalmente perguntados (sim, porque choramos em público para acionar a compaixão curiosa do outro):
Porque está chorando assim? A gente passa a mão desajeitadamente pelo rosto, dá uma fungada e responde.
Nada não.
Tá tudo bem.
E lá vai o outro, aliviado pela missão cumprida. E lá fico eu. Menos fungante. Menos encharcada.
E quando tudo aconteceu ela ...
chorava tanto e tão chorado que até os óculos que descansavam em seu colo, ficou ensopado. Ensopado não. Melado. Lágrimas com creme para as mãos e cutículas. Um embaço.
Pegou o lenço do marido emprestado. Lenço de pano Presidente com um pequeno coração vermelho pintado há muito por ela.
Enxugou primeiro o rosto também ensopado, melado, embaçado.
Sem desejar, mas já prevendo o estrago, verificou que a base líquida deixara o rosto para cobrir outras manchas, as do lenço.
Esfregou o tecido já gasto – e por isso macio – como se fosse uma esponja tirando sujeira grossa de um corpo sujo imerso na banheira.
Faltavam os óculos.
Com o lenço já molhado, imaginou que seria adequado usá-lo para secar as lentes e ao mesmo tempo tentar remover o tal embaço.
Ledo engano. Quanto mais esfregava, pior ficava. Julgou que não adiantaria insistir. Tem embaço que só é vencido com limpeza mais profunda. Soluções provisórias não dão conta desse trabalho.
Deixou assim. Ao menos estavam secos. Mas tecnicamente embaçados.
Devolveu os óculos para caixinha vermelha. Checou se o rosto já estava completamente seco. Suspirou. Bufou. E seguiu como se nada tivesse acontecido. Afinal, despencar num choro é algo muito natural. Muito.

Quando tentou lembrar-se há quanto tempo o conhecia, não conseguiu. Buscou na memória algum acontecimento importante que ligasse fato à pessoa. Não conseguiu. Só vinham sensações. Falta de ar. Incômodo. Aprisionamento.
Conseguiu dar forma e lugar para tanto estranhamento. Um quarto frio de Pousada simples. Seu corpo esparramado na cama e o coração espremido por milhares de palavras. Não conseguia sair dali.
Tudo se resumia a conseguir.
Imaginava como um homem conseguia falar de outros homens, todos os homens, com tanta precisão. Fazia um esforço tremendo para conseguir descobrir como ele tirava da alma desses homens tanto horror, tanta coragem, tanta vida.
Invejava a crença de quem não crê em que todos crêem.
Por isso quando naquela manhã – mais uma manhã – ouviu que ele estava morto, só conseguiu chorar.
Como tão distante dele, tão paralisada por nada poder fazer, começou a pedir ajuda.
Pediu para o camarada Leon recebê-lo como manda o figurino de um bom partido. Avisou Frida que ele era meio carrancudo, mas que bastaria uma boa gargalhada para ele desmontar.Diego também poderia seduzi-lo com o calor de seus discursos virulentos.
Achou que precisava de música, afinal tê-lo tão perto é algo que merece festa. Chamou Astor e alertou que ele talvez estivesse cansado, afinal vinha doente há algum tempo. Mas nada que seu bandeon não resolvesse.
Sentiu-se aliviada por garantir conforto ao amigo (nem percebeu que já o chamava de amigo), e quando enxugava o rosto lembrou-se de Fernando. Não precisou pedir nada. Já estavam a conversar.
Só conseguiu ouvir a voz rouca de um...
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
E o sussurro do outro...
“O essencial é saber ver.
Saber vem sem estar a pensar.
Saber ver quando se vê.
E nem pensar quando se vê.
Nem ver quando se pensa.”
Sentiu-se aliviada. Era o encontro que faltava. Seguiu tranquila. Já haviam se reconhecido. Dois magos que deixaram a magia dos livros
para nós que ainda estamos aqui.