
Tudo começou
Num jogo de dominó
Meu pai como sempre
Chegou em casa depois do trabalho
Tirou o paletó
Se jogou na cama
Me jogou pro alto
E gritou com vozeirão
É hoje que vou ganhar sem dó!
Minha mãe logo apareceu
Com a caixa verde na mão
Um tesouro de pedras brancas
Com pintinhas pretas
Que só de ver
Acelerava meu coração
Só que naquele dia minha mãe
Com a cara triste
Falou baixinho
Hoje eu não quero jogar não!
Jogamos eu e meu pai
Mas diferente do que prometeu
Eu ganhei todas as partidas
E ele até se esqueceu
De me deixar prisioneiro
Em cima do armário
Como vingança de um jogador
Que de mim
Só perdeu
De noitão
Não conseguia dormir
Levantei da minha cama
Fui pro quarto deles
E perguntei
O que precisava descobrir
O que aconteceu
Com nosso jogo
Você mãe, não jogou
E você pai, perdeu
Os dois
Fizeram cara de espanto
Me puxaram pro meio deles
Disseram que não era nada
Que estavam cansados
Preocupados
Problemas de gente grande
Pra eu ficar tranquilo
E ir dormir no meu canto
Nosso dominó
Desde esse dia
Não foi mais o mesmo
Meu pai só chegava tarde
Minha mãe vivia chorando pelos cantos
Minha casa ficou vazia e sem alegria
Comecei a jogar sozinho
Não queria incomodar
Mas até isso era difícil
Eles não paravam de gritar
Achei então
Que melhor seria
Se jogasse no lixo
As vinte e oito pedrinhas brancas
Do meu tesouro
Sem ter o dominó para atrapalhar
Sem ter que comigo brincar
Com certeza
Eles iriam parar de brigar
Armei meu plano secreto
Fiz sumir a caixinha
Agora era só esperar
Que tudo voltasse a ser
Como antes
Vinha
Um dia
Dois dias
Três dias
E nada
Os dois cada vez
Mais estranhos
E cheios de mania
Minha mãe dormia na rede
Meu pai ficava só no computador
E eu que não tinha mais dominó
Agora não tinha também
Meu pai e minha mãe
Estava só
Até que um dia
Me convidaram
Pra comer pizza
Quase não acreditei
Sair com os dois juntos
Que alegria!
Mas durou pouco
Logo que sentamos
Os dois já avisaram
Que nossa vida mudaria
Começaram explicando
Que tudo o que estava acontecendo
Não tinha na a ver comigo
Que me amavam muito
Que eu era um bom amigo
Mas que não se amavam como antes
Por isso não podiam viver juntos
Agora cada um em uma casa
E então senti o perigo
Onde eu iria morar?
Com quem almoçar?
ter que escolher
Com quem brincar
E se não desse certo
Com quem eu iria ficar?
Mas antes de começar a chorar
Os dois me abraçaram
E disseram
Que nunca iriam me abandonar
Que eu teria agora
Duas casas pra morar
Dois quartos pra dormir
Mas o amor seria o mesmo
As broncas também
Que no começo poderia até ser difícil
Mas que estariam sempre ao meu lado
E prometeram jamais mentir
O que me deixou mais sossegado
Depois de nossa conversa
Começamos a comer
Foi a melhor pizza do mundo
Eu que andava com dor de barriga
Sem vontade de comer
Do prato vi até o fundo
E antes da gente ir embora
Veio a grande surpresa
Um presente apareceu
Em cima da mesa
Abri o pacote feito louco
E quase morri de susto
Dentro de uma caixa verde
As peças de dominó mais brilhantes
Que já tinha visto!
E foi então que me disseram
Isso é para você saber que será
Sempre nosso parceiro
E amigo preferido
Voltamos a ser uma família
Só que agora diferente
Tinha minha mãe
E a namorada do meu pai
O meu pai
E o namorado da minha mãe
Ganhei dois irmãos
Agora somos três meninos
Ensinei os dois a jogar dominó
E a gente nunca está só
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Fiquei imaginando como seria esse texto em prosa, mantendo as rimas tão bem arquitetadas. Acho que seria um bom exercício. No final, eu substituiria a última palavra do texto "só" por "sozinho", me dá a impressão de fechar melhor.
O mote é super atual ao mesmo tempo que resgata aquela brincadeira antiga de jogar com companhia, hábito cada vez mais distante na era do computador.
Parabéns pelo texto. Li num fôlego só.
Que lindo, que triste, que lindo, que triste...!!!! maravilhoso, Tonha!
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