sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Posturas



















Jogava o corpo para trás
E a existência
Para frente

Na dúvida
Segurava a vida pelas ancas.
Com as duas mãos
Com os dois braços

No rosto
O maior vão do buraco
Do mundo

Quando os outros
Não conseguiam fazê-lo entender
A vida ou detalhes técnicos dela
Falavam alto
E ele
Ouvia baixo

Quando não entendia absolutamente nada
Parava
Aprumava as ancas
E esperava
Os outros

E de tanto seguir
Nesse sacolejo frouxo
De existir
Encostado em si mesmo
Um dia desancou
E caiu.

domingo, 23 de agosto de 2009

101 anos












Sei que hoje é seu aniversário.
Sei que penso muito em você. Tenho pensado nas suas casas. Nossas casas. Foram muitos anos escondida no aconchego de seus cantos. Vem o cheiro de sua cozinha. O chamado do seu café de bule. De tarde. Já no entardecer de sua vida. Vem o cheiro de porão. De passar. De costurar. Roupa. Nossas roupas. Agora minhas. Que você descosturou. E me deu. E eu fiquei aqui. Abrindo saco. Juntando trapos. Tentando reconstruir nossa estória. E agora, exatamente agora. Eu que pensava não ter saudades. Encharco o teclado. Ardo meus olhos
E te vejo.
No lado de fora.
De sua última casa.
Me esperando chegar
. Chegarei vó. Não sei se chegarei logo. Mas chegarei.
Por hoje. Penso em você assim. Perto de mim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Poeta nua














"Poeta nua".
Não fui eu quem disse.
Disseram.
E com tanto diz que me diz
Cá estou eu a desvendar
Tamanha esquisitice.

Se escrevo acreditando só eu entender
Me surpreendo a cada esquina
Olhares e meninas
Tentando me descrever.

Se ao contrário
Escancaro minha comportada loucura
Sou acusada de expor um sofrer
Que pouca
Pouquíssima gente procura

Leitores conhecidos
São investigadores de meu ser.
Leitores anônimos
Procuram e procuram finalmente, me ver.

Não me mostro.
Finjo que mostro.
Não me conto.
Blefo que conto.

E assim
No que escrevo
Com nomes de sei lá o que
Deixo pra trás tanto assunto
Que seria melhor até
Parar de escrever.


domingo, 16 de agosto de 2009

A moça que fotográfa a vida

















A moça que fotografou
A outra moça distraída
Sempre soube que por aquela cabeça
Passavam histórias bem doídas.

Mas quem fotografa assim
Quase displicentemente
Leva a vida e a dor do outro
De modo bem diferente.

Se é pra clicar
Que clic
Se é pra fazer
Que faça.

Sem ensaios de bons ângulos
Sem demora pra decidir
Assim fazendo
Assim vivendo.

E depois que fotografado for
E depois que vivido também
A moça que fotografa
Fica numa alegria que só faz bem.








sábado, 8 de agosto de 2009

Ledice




















Leda sempre me pergunta
Se sou eu mesma
Que sofro
Quando escrevo.

Digo que.
Digo.

Ledo engano Leda
Pensar que aludir vidas alheias
Traz sofrimento
A quem ousa fazer seu o que é nosso.